“Vida é o desejo de continuar vivendo e viva é aquela coisa que vai morrer. A vida serve é para se morrer dela.”
Tenho me sentido meio abelhuda nesses dias, zunindo pra lá e pra cá, carregando nas minhas asas mais peso que o anatomicamente correto, me esfregando em coisas bonitas, circulando perto de lixo, girando sem direcionamento e incomodando pessoas, ferroando quando é de ferroar mas também produzindo coisas doces.
E, como já escrevi aqui, tem uma abelha que mora no meu peito e ela voltou a me alfinetar. Não sei.
Talvez setembro seja realmente um mês meio triste, meio amarelado. Astrologicamente falando, setembro também é meu inferno astral (não posso cortar o cabelo), talvez seja isso. Dependendo, são as coisas familiares, as incertezas e milagres. Ou me deparar com as inflamações que meu corpo separou para mim nesse capítulo da vida. Não sei.
Só sei que me deparei com dores novas e com essa dor antiga e ela chegou amargando, diferente. Digo por aí, estou curada, estou curada, mas não estou.
Não sei nem que coisa é essa coisa que chamo de cura, se ela é possível.
Parece que me deparei novamente com o fato de que nada garante nada e nunca garantiu. Que mesmo eu passando pela semana sem faltar na academia, me alimentando com cuidado e vivendo entre amigos, ainda consigo chegar nesse lugar obscuro, que o Diabo é furtivo e sorrateiro e também faz oficina em mente cheia, ocupada.
Ocupada, tenho andado sem tempo e com tempo demais. Sem dinheiro e com dinheiro demais. Feliz e triste demais. Parei de escrever, por alguns meses.
Era meu compromisso, de quinze em quinze dias, conjugado com os dias da terapia, eu publicava, escrevia algo novo. Me dedicava na escrita, revisava, passava o tempo, criava. E aí parei, fiquei sem ter o que falar. Não tinha mais nada o que dizer, mais nenhuma coisa a explorar. Ao mesmo tempo parei de ler, perdi meu kindle, ressaca literária? Também não vejo mais filmes, nem bordo, nem sinto vontade de jogar jogos com os amigos.
Mas jogo mesmo assim, pela amizade, as coisas por mim (escrita, leitura, assistir filmes) fico sem. Não sei.
A psicóloga quer que eu faça sessões semanais de novo, ela está preocupada comigo abelhuda. Zureta.
Mas eu não estou preocupada, estou com raiva. Zangona.
Tenho chorado no fim do dia de raiva, minhas doenças não têm cura1, são crônicas, inflamatórias e fazem parte da minha vida agora. Inflamada sou eu e se eu decidir continuar vivendo inflamada assim desse jeito, não pode tomar sorvete, não pode viver sem remédio, não pode dar bobeira, não pode voar muito alto, nem fazer muita coisa que é um pulo.
É um pulo, e eu posso querer acabar com tudo de novo.
Posso querer acabar com tudo. Como se minha vontade dissesse alguma coisa. Não diz nada. Quero agora como já quis muita coisa, não as busco. Não persigo, fico sem.
Há quanto tempo e com tanta intensidade quis acabar com tudo, nunca sequer tentei. Planejava e manifestava, mas nunca cheguei perto. Como tantas outras coisas que quero, deixo pra lá, fico sem.
E nem sei também o que quero agora que finalmente posso tanta coisa.
“Queria que meu corpo não fosse da minha conta”, contei pra psicóloga.
Ela se aproximou da poltrona, com a cara preocupada, ela está preocupada.
Ela me perguntou de quem era a conta.
“de ninguém”, respondi
E me senti sozinha no mundo. De novo.
Caindo na mesma armadilha, a de me abandonar, de não lutar por mim, de querer que tudo magicamente se resolva ou então morte.
Talvez
quando digo cura, eu esteja querendo na verdade retornar a um lugar ou momento da vida onde essas doenças não existiam, mas não tem como isso, não existe estado anterior a qual voltar.
Eu era tão nova quando tudo começou, alguns diagnósticos vêm de nascença e foi bem na infância a primeira vez que achei que seria lógico morrer.
Não existe estado anterior a esse adoecimento, não existe uma versão minha com consciência que estivesse imaculada.
A vida toda, ou estive ferida ou medicada. As vezes mais, as vezes menos.
Mas talvez também, estar curada não seja a mesma coisa que nunca ter sido ferida. E eu nunca vou ter passado pela vida sem ter passado pela vida como passei, zunindo e ferroando desse jeito. E nem vou poder continuar vivendo sem ter chegado nesse lugar que estou hoje, em que mesmo não querendo, tomo conta do meu corpo.
E quando a Camilla me disse que eu estava pensando ao contrário, no dia que conheci a Tartaruga, eu fiquei chorando.
Porque eu fiquei triste de perceber que eu sou tão fácil de me descartar, que meu primeiro instinto é desistir. Eu que sempre nossa como sou criativa, mas não consigo nem inventar uma forma nova de me ver. Fico me dando ferroada daquele jeito antigo, fico tonta, me viro do avesso e desisto. Porque eu achei que era forte e não sou. Achei que estava nova e não estou. Achei que estava curada, mas achei que estar curada era a mesma coisa que passar a viver sem nunca ter engolido uma abelha, e sentir que ela mora no meu peito, e que ela fica me machucando só um pouquinho todos os dias, porque aí eu só vejo o tamanho do buraco quando começa a vazar tudo de novo. Quando começo a querer ficar esparramada na cama sem comer, sem dormir, sem criar, e querendo que meu corpo não fosse da minha conta.
Mas, uma vez, um filósofo disse que é da nossa tarefa se haver com a realidade que é a nossa (em tom de ameaça). Se veja com isso, com a realidade que é a sua. Ou isso ou perder todas as coisas, mas não garanto que não vá perder independente também, não sei, é setembro, é meu inferno astral, é oficina cheia de demônio e é vontade de chorar de raiva, mas é a realidade que é a sua e viver é uma doença crônica
A médica disse que a nova doença tem ondas. Piora e melhora. Piora e melhora. E eu também. Pioro e melhoro. Pioro e melhoro.
Eu não tenho esperança, acho que nunca vou chegar num momento em que eu melhore e fique por isso mesmo. Necessariamente, vou piorar em seguida, para depois melhorar de novo.
Mas acho que isso não é só meu, dos meus diagnósticos, acho que é das fases da lua que puxam e empurram as ondas, que levanta e escoa as marés. É da vida que piora e melhora, que vai pro hospital e depois vai pra praia.
Tenho pensado muito sobre tempo e em como nos relacionamos com ele dependendo do momento na história.
Percebi que, desde que existe relógio, a gente parou de se relacionar com o dia do mundo, porque meio dia se sabe olhando pra baixo e não para cima, nem para as sombras da luz. Ao mesmo tempo a direção se dá pela tela e pela voz sem sílaba tônica do gps, e não pelas curvas dos caminhos e terrenos.
Parece que o mal que sofro, é do mal do meu tempo de acreditar tão curtamente que as coisas são finais, que tudo tem causa e finalidade. Estou mal porque fui ferida e estou ferida para ser curada e estarei curada para viver bem uma vida constante e reta, cuja finalidade está em tudo o que é positivo, bom, perfeito e agradável. Confortável. Como se a linha do tempo devesse ser essa diagonal que aponta agressivamente para o céu, para os avanços, para cima, para a cura, parabéns. E quando me deparo com a inconstância, com os dias de chuva, com a maré alta de ressaca, com o cabelo já ficando branco, com dores antigas vestidas de novas, eu penso que estou errada, no caminho errado, desviada, desvairada, desatenta, fraca e que morte.
Mas as inflamações melhoram e pioram, as chuvas chovem e param, a maré sobe e desce, as ondas vem e vão. E eu fico triste e depois feliz e depois triste, também com raiva e também esperançosa, depois recomeço.
Pioro e melhoro. Depois recomeço.
Desde que pensei sobre tempo, ganhei uma dimensão dele.
No meu desejo de me tornar imortal, e de perceber minha relevância para além da linha didática de tempo de antes e depois, que inventamos para que seja mais fácil marcar compromissos, encerrar a terapia e marcar de ir ao cinema;
ganhei a dimensão do eterno, do infinito, daquilo que se estende para frente e para trás, sem nenhuma referência do agora.
O que chamamos de tempo hoje, que está no relógio e nas rodoviárias, é a forma que nós inventamos para medir as transformações. O antes, o agora e o depois não passam de uma unidade arbitrária de medida.
A Vida que é vida, há. Antes de mim, houve.
E ouça: haverá até bem depois.
Outro dia andei pela orla da praia e vi uma tartaruga, indo e vindo em baixo d’água. Pra cima e para baixo, para frente e para trás. Aquilo marcou meu dia e meu humor, marcou um antes e depois, marcou uma transformação, desde então não estou mais tão abelhuda, tartaruga.
Mas em algum momento, provavelmente, abelha abelhinha de novo.
E depois, quem sabe, existem muitos animais aí no mundo.
Que bom, não sei. Deve ser assim porque ainda estou viva.
endometriose, hidradenite supurativa, tdah, etc.









que texto potente!! fui junto com essa abelhuda zunindo, sentindo as ferroadas e os cantos de raiva. adorei como você misturou o íntimo das inflamações crônicas com imagens tão claras (a tartaruga na orla ficou comigo), e essa honestidade sobre “estar curada mas não estar” é verdadeira. me pegou também esse exame do tempo, essa ideia de que a vida não é uma linha reta e que piorar e melhorar é parte do mesmo movimento. não consigo não sentir carinho por você lendo isso!! parece que você se deu permissão pra ser complexa e contraditória, o que é lindo e humano!!!
❤️