Como era carioca, Ana Maria entrava no mar. Principalmente se fizesse sol.
Desde criança Ana Maria gostava da água gelada, da areia, de sentir calor e se refrescar na praia, brincava com crianças que nunca tinha visto e com as crianças da sua família também, gostava especialmente de brincar com suas amigas da escola, quando por acaso iam à praia no mesmo dia. Mas também entrava na água sozinha e era um momento igualmente especial, o mar tem dessas coisas. Ele puxa a gente. Ana Maria, que era puxada para o mar, quando estava sozinha gostava de boiar, ficava olhando para o céu azul e para as nuvens e admirava o formato delas.
Fez isso muitas vezes, era nativa do mar, Ana Mar ia.
Quando ficou moça, gostava de ir sozinha à praia. Levava seus livros, olhava alguns meninos e entrava no mar. Gostava de quando a água estava muito gelada, tão gelada que dava choques na pele. Nadava um pouco, gostava do movimento e da correnteza. Mas gostava principalmente de ir até atrás das ondas e boiar, justamente para entrar nesse estado de contemplação e união com a paisagem, fazia parte dela. Contemplava com tanta naturalidade, a paisagem era tanto o fundo da sua vida, que nunca se deu conta sequer que o que fazia era uma contemplação.
Um dia, em especial, as nuvens estavam tão brancas que não conseguiu acreditar naquela cor. Que engraçado, pensou, essas nuvens hoje estão diferentes do que um dia foram, parecem de mentira. Engraçado que só percebi hoje, engraçado que só agora. Como pude perceber apenas agora, no dia de hoje, algo que esteve o tempo todo em cima da minha cabeça? É realmente curioso isso de estranhar as coisas, num dia é normal e no outro parece único. O céu é tão grande, não consigo nem imaginar como é tocar numa nuvem. O céu parece um domo que prende a gente na terra, mas sei que mesmo se esticar a mão nunca vou encostar em nada.
Ana Maria parou de boiar, olhou para o horizonte, nadou um pouco para mais distante da areia, ela não dava pé. Mas tudo bem, pois já era acostumada. Fez isso muitas vezes, era nativa do mar, Ana Maria.
Olhando para o horizonte, viu o limite do céu e do mar e ficou pensando no céu.
Parece um desenho, pensou, algo distante. Como os artistas conseguem pintar essa linha tão fina mas que separa tão bem uma coisa da outra? O que será que a primeira pessoa que viu esse mesmo horizonte pensou? Será que ficou maravilhado? Será que ficou com medo? Que bobagem. Porque alguém teria medo? Se bem que o desconhecido pode ser mesmo assustador, os antigos eram na verdade muito prudentes por ter medo do mar. Isso de querer nadar sem dar pé é coisa de hoje em dia e é mesmo muito perigoso, não chamo nem de coragem, parece até imprudência. Não há nada que garanta, o mar tem dessas coisas, ele puxa mesmo a gente.
Ela sentiu medo. Que bobagem. Não se apavorou, sabia que isso a impediria de voltar para areia, para a segurança. Mas sentiu medo mesmo assim, de repente aquele mar não era mais dela. Se sentiu traída, talvez tenha sido culpa das nuvens. Se elas não estivessem especialmente brancas, especialmente hoje e naquele momento, ela não teria percebido nada, seria só mais um dia de praia e acabou.
O problema é que não conseguiu voltar ao estado anterior, as nuvens estavam brancas demais, parecia um desenho. O céu parecia que tinha fim, que se ela esticasse a mão e subisse o suficiente seria possível tocar em algo. E aquela linha que separava o céu do mar, parecia que foi feita por alguém com uma régua, com muita medida, com muito afinco. Estava lá, como sempre esteve, mas tão diferente.
Meus Deus, pensou, como pude nadar desse jeito?
Sob o céu de mentira sentiu medo do mar, mesmo estando de volta a areia. Mesmo dentro de casa, contou inclusive aos familiares.
Nunca mais volto ao mar! É extremamente perigoso e não perdoo vocês, não perdoo vocês por terem me deixado assim, só. Assim, sem ninguém, num lugar daquele!
Mas Ana Maria, tentaram argumentar, o que mudou de ontem pra hoje?
E ela não soube responder.
Que esquisito, que pergunta esquisita. O que mudou de ontem pra hoje? O perigo não estava lá quando cheguei?
Não sei, mas com certeza está lá agora. E eu não volto mais.
Os anos se passaram e Ana Maria até ia na praia quando era convidada, mas foi ficando até mais pálida, pois passou também a ter um pouco de medo do sol.
Causa câncer, vocês sabiam? Disse aos amigos. Temos que passar protetor, usar um boné, ficar embaixo da barraca.
E no mar, Ana?
Não entro nem de bóia! Tudo pode acontecer.
Piorou quando vieram os filhos. As crianças parecem que não tem medo do mar, nem de desconhecidos, queriam ficar brincando umas com as outras. Ana Maria se apavorou quando a filha brincou com uma outra criança que ela não sabia quem eram os pais! As crianças têm de aprender bastante coisa, mesmo. Elas não tem medo daquilo que é para ter medo, não podemos dar chance ao desconhecido assim desse jeito. E se levarem minha filha? E se for um complô organizado por uma gangue levadora de crianças cariocas e essas outras crianças, que a gente conhece na praia, estão metidas nessa gangue! Afinal, ninguém desconfia de crianças e é por causa disso mesmo que ocorrem os sequestros. Sequestros? Se der sorte! Podem ser mortas, vendidas, traficadas para a Turquia, roubarem os órgãos… Tudo pode acontecer. Mirou em sua filha que estava conversando com a criança desconhecida cumplice do crime de tráfico humano e a puxou para longe.
Vamos embora pra casa agora!
Mas mãe… tentou argumentar
É perigoso demais! E você ainda por cima está sem protetor!
Descobriu naquele dia que seu medo era maior que ela. Jamais, pensou, jamais conseguirei suportar a ideia de deixar minha filha só, assim como me deixaram, à mercê do desconhecido. Preciso, como uma mãe boa, blindá-la do perigo.
Que bobagem, pensou. Acho que nunca vou conseguir evitar todos os sequestros.
Um dia estava sentada escrevendo e, como era carioca, conseguia ver o mar de onde estava. Sentiu saudade.
A essa altura, já era até avó, e preferia nem ir à praia se fosse pra ficar olhando o garoto nadar sozinho, até depois das ondas, como se fosse parte da paisagem. Ele não sabe, ninguém sabe de verdade o tamanho, a dimensão do que aquela quantidade de água pode fazer com o corpo de alguém. Ele não sabe e nem ninguém sabe se tem animais perigosos, não precisa nem ser tubarão, alguns são venenosos e silenciosos, a gente nunca vai saber. O salva vidas não vai saber, quantas notícias já lemos de afogamentos, ter um salva vidas não garante nada.
Nada garante nada e nunca garantiu.
Que engraçado. Ana Maria se levantou e foi ver como estavam as nuvens. Que engraçado, estavam mesmo muito brancas naquele dia, como um dia já estiveram.
Nada garante nada? Se perguntou. Nunca garantiu. Respondeu.
Lembrou-se da pergunta de seus pais, o que mudou de ontem pra hoje?
Um dia nada, no outro medo, e agora? E hoje?
Engraçado mesmo, isso de se deparar com o que sempre esteve lá mas nunca tinha aparecido. Parece que foi na linha que separa o céu do mar que Ana percebeu, percebeu que morre, que morreria um dia e que perigo. Como é perigoso viver, estar no mar, estar à deriva. Queria que alguém a tivesse avisado antes, mas… Mas também não é como se ela não soubesse, como se não fosse implícito. Como se o simples ato de entrar no mar já não te colocava de frente pra essa possibilidade. Toda vez que entro, posso não sair. E toda vez que saio, posso não mais voltar. Assim como não mais voltou.
Tentou se distrair com as linhas que faltavam para escrever, com seus documentos, com sua tela de computador com as linhas criadas com afinco e bem delimitadas. Mas não conseguiu.
Do mesmo jeito que não conseguiu antes, do mesmo jeito que a nuvem estava branca demais, a luz da tela estava forte demais. Será que pode matar?
O papel, que estava do seu lado, não poderia te cortar? A luz não cega? A doença não vem? O tempo não passa?
O que tem de diferente entre entrar no mar e viver a vida?
Vida essa que necessariamente acaba em morte, vida tão perigosa, tão absurda, tão desconhecida e que nada garante.
E às vezes nem por acaso. Não era ela ontem mesmo que escolheu comer uma torta no lanche da tarde ao invés de uma saudável fruta? Não foi ela mesma na semana passada que bebeu cerveja com as amigas da escola, que não via há tantos anos, e ficou até tarde, e ficou até bêbada e ficou até feliz? Isso também não mata? E se mata, isso também não é vida?
E o mar? Porque ele foi escolhido como pária, sendo que nada é tão diferente disso? Nada é tão diferente dessa realidade, o mar puxa a gente. Pode viver e pode morrer, pode gostar e pode achar ruim. Pode entrar sem sair, sair sem entrar. Pode os dois e até pode outra coisa. Pode ser o que quiser e pode até ser que seja o que for, sem precisar perguntar pra ninguém. Pode ser parte da paisagem.
Levantou-se. Colocou um maiô, passou protetor e foi à praia.
Não estava lotada, era dia de semana. O céu era azul e as nuvens brancas, mas não fazia calor de verão. Era calor de meio do ano.
Eu não nadaria nesse mar, nem na época em que nadava no mar. Será que me lembro como faz pra nadar? As pessoas não se esquecem de andar de bicicleta, será que elas se esquecem como nada? Será que adianta?
Sentiu muito medo. Saber ou não saber nadar, de que adianta. Mar não é piscina. Aquela borda, lá longe, não é e nem nunca foi borda, é mais e mais mar. Mais imenso, mais fundo, mais distante. Não adianta saber nadar porque o mar tem disso, ele puxa a gente e não adianta fazer nada. Que perigo, que perigo, por que estou fazendo isso? Por que me dou ao trabalho? Por que estou aqui? Qual o sentido, de que adianta?
Chegou bem perto da borda, as ondas vieram mas não tocaram seus pés, depois voltaram.
Para o mar me encostar, eu preciso ir mais perto.
Deu mais dois passos corajosos, deixou marcas de onde esteve na areia.
A água encostou nela, porque ela encostou na água. Estava geladíssima, tinha muita espuma. Sentiu aquele choque que era tão familiar, o cheiro parecia também o mesmo e o barulho da correnteza e do vento abafou o barulho das outras coisas. Essa era a paisagem e ela estava ali. As ondas não estavam fortes, era perfeito para nadar até depois das ondas e ficar olhando para o céu.
Será que consigo? Será que consigo voltar àquele estado?
Acho que não, pensou, ainda bem. Ainda bem porque antes eu não sabia do perigo e agora eu sei. Agora eu sei o risco, agora eu estou aqui apesar dele. Estou aqui por causa dele.
Ana Maria respirou fundo três vezes, fez um sinal da cruz. Era agora, a grande aposta.
Que Deus me abençoe, que o mar me acolha, que eu retorne a vida.
Como todo carioca, Ana no mar ia.
essa é uma história semi-verdadeira que aconteceu com minha professora da especialização, tomei liberdades artísticas para fins poéticos-existenciais.
mas como um todo a mensagem é a mesma.




Como era carioca, Ana Maria entrava no mar. / E se mata, isso também não é vida? / Aquela borda, lá longe, não é e nem nunca foi borda, é mais e mais mar.
lindas frases. alguns medos realmente só existem quando nos damos conta de que eles existem, às vezes a ignorância é uma benção.
como diria guimarães rosa: viver é perigoso, carece de ter coragem
Obrigada, querido! Fico feliz que gostou!