versão revisada e amadurecida de um conto que escrevi em 2013 e guardo no coração com muito carinho.
Todos os dias, o sol vai embora perto das seis.
Todos os dias, quando está para dormir, Eduardo sente uma presença em seu quarto, olha em volta, mas não vê nada.
Todos os dias depois de deitado, Eduardo sabe que está sozinho, mas sente alguém prestes a tocá-lo.
O que é isso, ele nunca soube, mas todos os dias, desde criança, ele sente como se houvesse alguém ou alguma coisa escorado em seus ombros, chegando bem perto com a ponta dos dedos gelados, ofegante em seu ouvido. Mas nunca vê nada, nem sente nada. Sequer o encosta, permanece assim, todos os dias depois do sol, prestes a tocá-lo mas sem jamais tocar. Essa ambiguidade o afeta profundamente, ela anda pelos lugares com aquilo aproximado de suas costas, gelando. Mas ele e a coisa não fazem nem dizem nada, sequer podem, afinal, não há nada quando vira as costas.
Todos os dias, quando o céu ficava de novo claro, Eduardo achava que era uma grande bobagem, absurdo. Eu já acendi a luz do quarto, eu não vejo nada. Eu não vejo ninguém, portanto não é nada e não é ninguém.
Um dia depois de alguns anos, perto das seis, Eduardo sentiu o gelo do dedo de alguém e se arrepiou. Mas dessa vez, apesar dos olhos fechados, era algo, era alguém que estava lá, que ele mesmo convidou. Não era bobagem, nem sequer absurdo. A luz estava apagada, mas o toque nas costas dessa vez estava ali. Finalmente. E estava de propósito, Eduardo estava tocando e se sendo tocado por que queria. Aquilo qual o acometia todos os dias, naquele dia, foi embora por um momento. E ele achou até que nunca mais voltaria e que tratava-se apenas da sua imaginação, tão fértil. Mas foi, que pena, só por um instante. Em seguida ela estava ali, tão real como sempre esteve, mas sem nada ao qual Eduardo pudesse se agarrar para dizer que existe.
Ainda naquele mesmo dia, quando estava bem escuro, mesmo não estando sozinho, ela voltou por ele. Não o tocou, como nunca tinha tocado, mas Eduardo sabia da intenção desse alguma coisa. Sabia que a intenção desse alguma coisa era encostar nele e lhe dar um susto, arranhar suas costas e ferir sua pele, puxá-lo pelos cabelos e o arrastar pela Terra até os confins do inferno. Eduardo sabia que aquele alguma coisa só não o fazia por motivo nenhum, sequer desconfiava que havia razão nessa sombra, não deveria querer naquele instante ou não deveria ser o momento ideal, talvez. E o rapaz se encontrou ali, nessa maldição, certo de que por toda sua vida teria de conviver com esse alguma coisa que sequer existe, que nunca está lá, mas poderia estar quando quisesse.
Quando ficou adulto, mais velho, Eduardo mal dormia. Temia muito aquela mão invisível que não o tocava as costas dia nenhum, noite nenhuma. Passou a senti-la todas as horas do dia, quando estava trabalhando, quando estava lendo, quando estava cagando, quando estava almoçando e principalmente quando estava para dormir.
Um dia, ele a amaldiçoou.
Eu te amaldiçoo! Eu te amaldiçoo, Ausência Maldita, que me atormenta desde os primórdios da luz, que me ameaça e me faz refém. Te amaldiçoo e quero pelo menos saber o motivo, por que eu? Por que comigo? O que tem em mim que te ojeriza tanto que nem sequer me toca? Por que não me arranha logo, arranca minha pele? Por que não me mata como tem me ameaçado matar todos os dias? Por que logo não me puxa pelos cabelos e me coloca diante do próprio Diabo dentro do inferno? Por que permanece assim, tão perto e distante de mim a me atormentar desse jeito? Se deseja me matar, que mate logo.
E repetia a maldição todas as noites antes de dormir, tornou-se sua oração. Até que percebeu que essa alguma coisa jamais iria embora e ele teria que sustentar esse nada até o fim, e essa era a maldição dele.
Viver por entre os seres humanos que se encostam foi o aterrorizando, como seria o toque do Coisa Alguma? Seria gelado como quando minha avó me cumprimenta? Seria quente como quando estou com uma mulher? Seria macio como as mãos de uma criança? Ou suas mãos são calejadas? Sequer poderia chamá-la de mãos? Como uma sombra encosta na gente, como uma fumaça nos atravessa, como é a textura de uma nuvem? Como será a forma da mão daquilo que não tem forma de coisa nenhuma? Por favor, não me toque, dizia, não me toque assim de supetão que eu não gosto. Eu tomo susto.
Dizia a sua esposa, aos seus filhos aos seus amigos. Por favor, não me toque desse jeito. Não me toque assim mais. Não me toque assim jamais. Por favor, não me toque jamais. Eu não suporto esse tato, essas mãos, esse formato, essa textura, essa aspereza que as linhas dos seus dedos têm.
Todos os dias Eduardo ficava com medo de ser tocado por Coisa Alguma e por Qualquer Um.
Eduardo, já idoso, sozinho, mal saía de casa. Mas cansou-se, da vida, da incerteza, da espera. Por que seguia esperando, antecipando um toque que jamais veio, mas poderia vir qualquer dia. Poderia ter vindo qualquer dia desses, quando estava feliz ou triste, quando estava despreparado. Mas agora se preparou, se afastou de tudo que encosta, se separou de tudo que tem toque, de tudo que faz atrito, de tudo que arranha. Estava cansado e um dia, esteve também preparado. Suplicou da seguinte forma:
Eu te amaldiçoo! Eu te amaldiçoo, Presença Maldita, que me atormenta desde os primórdios da luz, que me ameaça e me faz de refém. Te amaldiçoo sem saber o motivo. Eu, que te ojerizo tanto que sequer me tocas. Me arranhe logo, arranque minha pele. Puxe meus cabelos, oh Presença Bendita, me coloque diante do próprio Diabo no inferno. Chegue perto de mim, me atormente desse jeito, chegue perto de mim. Se deseja me matar, mate logo, chegue perto de mim.
E então, sem aguardar mais nada, a mão do Coisa Alguma o tocou nas costas, dobrou sua espinha, gelou seu sangue, arrancou sua pele e o puxou pelos cabelos o arrastando pela Terra até os confins do Inferno. Agarrou sua alma e dilacerou seu espírito, removeu suas entranhas, desfez suas vontades, removeu seu fôlego. O tocou da forma como uma fumaça toca um corpo, o atravessou e se alocou através de sua respiração. Sufocou tudo o que o fazia viver.
E seguiu dentro de sua vida assim, todos os dias, todas as noites. Principalmente quando estava para dormir.
Eu nunca leio contos, mas por acaso o seu tá muito legal, eu achei bem interessante, por que me gerou um certo "medo" de quando a coisa iria aparecer. Que legal.
Uau! Terminei de ler agora e fazia tempo que eu não me perdia numa história imaginando as coisas bem como estão sendo descritas! Que demais.