Bem que te vi todo dia
cantos, cortejos e o passarinho chamado Sísifo
é muito importante para mim que você entre em todos os links que dispus,
mas não precisa ler ou assistir tudo até o final.
todas as palavras que estão escritas aqui foram escritas de propósito
então preste atenção.
Estou quieta. Tenho estado em silêncio. Cansada de falar. Ouço com atenção e não digo nada. Você viu isso, viu aquilo? Qual sua opinião sobre? Nenhuma. Eu vi, mas nenhuma. Não tenho o que dizer. Estou não-verbal, como dizem as más línguas, ou não estou caçando fundamento, como diz o meu pai.
Tenho sentido a necessidade de retorno.
Já vi tudo, já ouvi de um tudo, acabaram os lugares para ir, preciso retornar.
Porque como diz o mestre, viver é partir, voltar e repartir. partir, voltar e repartir.
e repetição.
Tenho ficado em silêncio e prestado atenção nos pássaros. Como se fosse um rito de passagem a vida adulta dos da minha família. Meus tios todos sabem sobre pássaros. Já sei identificar pelos cantos o pardal, o sabiá e, é claro, o bem-te-vi. Mas são muitos, muitos que não conheço os nomes, muitos que nunca ouvi cantar.
E parece que tudo o que deve ser dito sobre os pássaros já foi escrito, eles passarão e eu passarinhos soltos a voar dispostos. Mesmo assim me interessam muito os seus nomes, sua natureza, como eles são presenças de fundo, como falam quando acordo, almoço e ficam em silêncio na noite. Minha mãe dizia que meu avô era caçador de passarinhos, e ele já me mostrou os apitos que usava para atraí-los. Com uns formatos esquisitos e o som maravilhoso, não sei onde esses apitos estão, mas recentemente adquiri um que agora uso para conversar com o Sabiá.
Acho que vivi cercada pelos pássaros por todos esses anos e nunca me dei conta. Tale qual todo mundo que tem acesso a árvores. Hoje em especial, escuto os que moram no quintal do vizinho que tem muitas árvores que ainda não sei nomear, árvores que são casa de saguis, periquitos, morcegos, meio milhão de insetos e, é claro, os meus novos melhores amigos: os pássaros.

O bem-te-vi em especial me lembra muito da minha infância, foi o primeiro que soube ouvir. O primeiro que sabia só de olhar. Ele me é especial por ser esse olho que tudo vê que vive num flagra perpétuo, que grita quando vê. Ele agora, inclusive, deve estar me vendo presa nessa escrita por dias e dias. E conversa com os outros, rindo de mim que escreve e de você que lê (e aqui imagine o bem-te-vi nos sobrevoando e falando em voz alta) bem estou te vendo aí saracoteando por entre os clichês de passa-passaradas, querendo que escorra por entre seus dedos algo novo, bem te vi você aí achando que sequer tem algo a ser dito. Não tem, não tem! Se tivesse, eu saberia, e eu não diria logo a você, que é uma ser humana qualquer, que nasceu esses dias. Logo eu, que bem que já vi de tudo, não diria a você que não enxerga nem o que está bem na sua frente. Eu que já vi tudo, todo o mundo, antes mesmo do mundo ser mundo, desde que você nasceu eu vi, eu vi tudo, bem que te vi, nem sempre que te vi bem, mas bem que te vi. E ouvi. E disse a você, bem te vi!! Bem te vi, sua safada, vi tudo, te peguei no flagra, com a boca na botija, com as calça arriada, prestes a, prestes a nada, prestes a tudo e sem fazer nada. Bem que te vi e bem que te conheço, você nunca diz nada, nunca diz nada, só repete, só repete e eu vi você não dizendo nada! Bem te vi, mas nunca te vi bem. Bem-te-vi, nunca te vi bem.
E eu me lembro da minha tia mais brava me dizer que o bem-te-vi vigia criança arteira, que se eu fizesse algo de errado, ele veria e depois ia contar pra ela, e ela iria brigar comigo. Mas essa memória me é tão embaçada, que pode ter sido até que inventei agora que ele está bem aqui me vigiando de novo. Que talvez minha tia tenha só me dito que o bem-te-vi avisa quando vê. Para que eu prestasse atenção nos pássaros desde cedo. Mas que como ele vê o que vê, e avisa com tanto alarde que está vendo o tempo todo, a vigília eu completei nas entrelinhas. E logo inventei que ele é o vilão vigilante do mundo, tendo sido essa criança medrosa que nunca fazia arte, e sendo hoje essa adulta que vigia a própria infância.
Já o Sabiá Laranjeira surgiu no ano passado, aqui nesse quintal vizinho. E foi meu tio mais manso que me disse que existem muitos deles por esses cantos aqui do Rio de Janeiro. E já esse é um pássaro metafísico, que parece saber do futuro e do passado no presente, que sabia e saberá e sabiá ao mesmo tempo. E o assobio dele é diferente para cada sabiá, como nós pessoas temos vozes diferentes mas falamos as mesmas palavras. Ele morou na árvore perto aqui da minha casa no ano passado e depois foi embora. Acho que por causa da bateção de martelo aqui do lado, mas agora ele voltou. E eu sei que é o mesmo que voltou, porque ele assovia sempre igual, e quando eu apito ele me responde, então acho que tem a ver com a estação do ano, ele deve voltar para essas mesmas árvores na primavera.
Já faz um tempo que queria escrever, sobre qualquer coisa e não sabia o que, não sei por onde e nem o que dizer. Tenho estado em silêncio, tudo o que eu falo é talareguice. Comecei pensando sobre pássaros, que é o que tem ocupado minha mente recentemente. Mas tudo o que escrevo é essa história sem começo nem meio nem fim, um grande lenga-le-lenga, parece que tudo o que posso dizer, já foi dito um milhão de vezes antes, e já foi escrito um milhão de vezes antes, e já foi melhor escrito, inclusive! Não há nada de novo nessas mesmas palavras.
Não há nada de especial no meu canto.
O bem te vi acabou de flagrar. Bem-te-vi.
Me viu lamentando a falta de voz e querendo buscar motivo para falar o que falo.
E agora o sabiá está um pouco mais longe, biá-bi-bi-á. piauí-piauí-pipiauí.
Como eles conseguem? Como podem dizer sempre a mesma coisa? Como podem repetir seus cantos todas as vezes? Porque não fazem nada novo, nunca?
Eu pergunto a eles e eles devolvem a mim, estão mais distantes.
Porque você não faz nada novo nunca?
De que serve um animal dessa natureza? Eu pergunto a elas outra vez. Que estranhas são essas aves, que são mais próximas até dos dinossauros do que da gente, de tão distantes. O que tem em seus sons, pássaros, que pela repetição incessante, ganham seu nome? E quais são os sons que a gente faz aqui do chão? Onde o meu falar é diferente de dizer piu piu? E em que me incomoda essa minha insignificância de repetir e repetir e repetir o que foi dito? Não sou eu também parte do todo que é o mundo? Não sou eu apenas mais um bicho entre os outros? E, afinal, o que é isso que é tão óbvio, que eu não quero nem me dar ao trabalho de dizer?
Bem me viu agora. De novo. Nua e roendo as unhas pela madrugada.
Talvez, saber de mim seja me reconhecer. E me reconhecer, seja saber também o meu canto. E o canto é tanto o meu canto físico, o meu contorno, a minha casa. Quanto é a minha canção, que é o meu nome. E eu preciso descobrir o meu nome, para poder saber o que dizer, para poder repeti-lo, e repeti-lo, e repétilo até o fim.
Talvez, ao perder a vontade de encontrar finalizações e de buscar findar minhas referências de início, eu perdi também a capacidade de começar a dizer esse meu nome, e ele perdeu força. E eu nem sequer sabia disso. Mas também, como poderia? Nem estou chegando perto das folhas.
Não sei como eu faço isso, apesar de dizer que é o que eu sempre faço. Como eu manobro esse sentido e o outro, como pode um passarinho passarando e eu tic-ticando no computador inventar história, sentido, reflexão e essa bagunça que as vezes chamo de poesia, que as vezes acho bonito, mas que na maioria das vezes é só repetição de tudo o que eu mesma já escrevi. Não parece um poder, parece uma chatice, parece uma sina. Enquanto os pássaros voam, as formigas trabalham e os peixes nadam, eu não sei nem qual é o meu nome e já acho que fui punida por ter de repeti-lo. Aquilo que está para os pássaros a gente chama de ciclo, natureza, fluir da energia renovadora das árvores, mas quando está para mim eu chamo de maldição, tédio, estagnação, empurrar pedra sem ser feliz e me queixo.
Preciso me contentar com me repetir.
Mas se, como nos pássaros, o meu nome está ligado ao que eu digo repetidas vezes, devo também me perguntar o que estou dizendo. O que estou dizendo ponto de interrogação ???? Como me repito?
Agora já está de novo de noite. Nenhum pássaro canta, estão dormindo. Mas os morcegos morcegam, e os pernilongos vem até aqui beber do meu sangue. Agora somos nós, é o momento daqueles que só saem a noite, das criaturas cegas e das que vão morrer a tapa. Reli muito do que escrevi ao longo deste ano para saber o que estou dizendo, o que estou querendo dizer. Falo muito de reencontro, cura, amor e de todas as dores. Falo da minha infância, falo sobre tempo, faço piada e invento mitos de criação.
Me perguntei recentemente
O que eu quero agora que posso?
Mas esse monte de desejo, de querer quer ter, vem me enjoando. Faço careta, viro a cara, recuso. Estou doente do estômago e intestino. Não quero querer tanta coisa assim e não quero que minha vida seja definida por essa instituição falha e limitada que chamamos de consciência. Não quero escolher rumo para onde só cabe mistério. Quero, veja só que insolência, QUERO que minha existência seja tão simples quanto um canto de um pássaro, que diz de seu nome.
Quero saber dizer meu nome, e saber o que ele quer dizer.
Que flagra, me peguei querendo e querendo de novo. Me repetindo de novo, flutuando, nadando pelas águas selvagens dos meus conceitos criados, dos meus simbolismos frouxos. Presa nas redes dos chiclês.
Mas e o que que tem isso, Patrícia? Não interessa também.
Se você é uma pessoa, precisa saber querer. Não tem problema sentir vontades nem desejos, mentiram para você! Você pode, sim, fazer arte, fazer o que te dá vontade e é, inclusive, muito importante que saiba o que quer, como quer, se não vira bagunça! Querer e querer tanto o tempo todo é também a própria repetição, algo que é tão da nossa natureza que todas as pessoas escrevem sobre seus quereres, sobre não querer querer, e sobre o que é esse querer que nos guia, e o quanto a falta dele nos estagna. E não tem problema nenhum, o bem-te-vi não está te vendo, na verdade, nem te vigiando. O bem-te-vi em mais o que fazer, está vivendo a vida de passarinho dele por entre as árvores e céus. E você, que leu até aqui, não é um júri, não é juiz, não é Deus pai todo poderoso, não é a banca do exame nacional do ensino médio e certamente não é a minha mãe. O que eu quero agora que posso? Eu quero saber me repetir bem. E eu posso repetir o que eu quiser. E eu posso repetir quanto puder. E eu posso repetir até não caber mais repetição na minha vida, porque eu e você somos um passarinho chamado Sísifo, que está nessa constante levantação de pedra morro acima para depois ela rolar e a gente ter que subir tudo de novo. E ele quer subir de novo. É aí que está o novo, finalmente. Parabéns, você o encontrou.
É o ciclo sem fim, que nos guiará pela emoção com fé e amor.
Uai, gente? O que vocês pensaram? Em que vocês acreditam? Acha que somos extra terrestres? Estamos no mesmo lugar, pisamos na mesma terra, voamos sobre o mesmo céu. Se os passarinhos cantam a mesma música todos os dias, se migram todos os anos e se alimentam sempre das mesmas frutas, quem é você para achar que precisa de novidade? Que tem de especial o ser humano para supor que se repetir é estar amaldiçoado? Não está em ciclo até os planetas e a lua? Não vemos todos os dias o ciclo do sol, dos mares e da história? Eu vou escrever sempre do mesmo jeito, não tem para onde fugir, vou construir do mesmo jeito, vou pontuar os mesmos pontos, vou adicionar mais e mais vírgulas, e vou querer sempre fingir que existe uma quarta parede a ser quebrada, porque eu acho chique isso de meta linguagem, acho bonito escrever como se estivesse falando e eu sempre estou falando, falando, falando com alguém. Tenho sede de me comunicar, tento fazer com que você escute minha voz esbaforida, quero que entenda que falo muito rápido e que esse parágrafo longo perto do final, como quase sempre faço, é o fluxo do meu pensamento desatento e desatinado, é assim que eu canto, é a minha repetição.
Dar esse tal fim a vida, seja finalização ou finalidade, não me cabe. E eu estou fazendo o esforço de só estar onde caibo, soltar das minhas costas as tarefas que não são as minhas, para que fique mais fácil voar, voltar e repartir.
Paciência, um dia o fim virá sozinho.
E espero que me encontre com vida (alguém já disse isso).
Cumprindo minha tarefa de criar sentido, um para quê viver e morrer.
Rolando a minha pedra morro acima, feliz, cantando no meu canto, principalmente. Sem me doer por estar fazendo toda vida a mesma coisa, que isso não é prisão. É o de novo da vida.
E se quero mesmo viver com a simplicidade do canto dos pássaros, posso simplesmente seguir o exemplo do meu vizinho Sabiá Laranjeira, que terei uma vida boa suficiente. Veja só, que incrível seria, viajar todo ano, dormir e acordar bem cedinho, e cantar a mesma canção todos os dias.
Me conta o que você achou dos vídeos e textos que adicionei. Conseguiu ler todos? Como foi? Pode me contar sobre sua relação com a vida e os passarinhos também, vou gostar de ler, eu sou muito curiosa.




texto lindo, escrita incrível!!!! e eu adorei a colagem, achei muito linda e simbólica ❤️
Que coisa linda!